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| TEXTO COMPLETO |
A tenda de Milca ficava a meio do arraial da tribo de Dã no extremo nordeste do acampamento de Israel segundo a disposição das tribos que Moisés ordenara por orientação divina. A mulher aproximou-se de outra tenda e chamou com voz baixa:
- Lia
Esperou pouco tempo e outra mulher surgiu do interior desta tenda com um largo sorriso nos lábios e olhar brilhante.
- A Paz seja contigo (saudou a recém chegada)
- E contigo seja a paz (retribuiu Milca)
Ela e Lia eram companheiras e amigas desde a infância. Criadas no Egito ainda lembravam-se da terra do cativeiro. Casaram-se no deserto quase no mesmo dia e já embalavam os netos apesar de terem pouco mais de 40 anos. A amizade era algo tão natural que já não sabiam viver sem a outra ali ao lado, na tenda vizinha.
Todos os dias iam juntas buscar o maná que Deus dava para a alimentação do povo no deserto. Era uma tarefa rotineira que permitia iniciar o dia com uma boa conversa. As duas seguiram em direção ao alimento por entre outras tendas armadas na vizinhança trocando pequenas informações pouco importantes da vida das respectivas famílias.
A região era árida e pedregosa. Um vento quente e seco soprava quase continuamente de leste e trazia com ele um cansaço fora do normal. A respiração parecia mais difícil neste clima inóspito e baixo desse calor opressivo. Mas a verdade é que já não se lembravam de quando não estavam no deserto caminhando de um lado para outro.
Fora do arraial pararam. Lá estava o pão do céu como todos os dias. Uma camada de farinha amarelada, quase dourada, fina e fácil de recolher que cobria a região de forma milagrosa todas as manhãs sem falha. Cada família devia tomar o suficiente para o dia sob pena de perder o excedente que se estragava no dia seguinte. A única exceção era a sexta-feira. No Sábado não havia maná, mas a dose dupla recolhida na Sexta não se deteriorava. Tudo isso, prova tão inequívoca do cuidado divino, parecia Ter perdido sua importância para o povo. Á força de ver o milagre se repetir semanas e meses a fio o tornavam banal e até cansativo.
- De vez em quando não tens vontade de comer uma coisa diferente? (perguntou Milca parando de colher por um instante).
- Como assim? (estranhou Lia).
- Comer comida de verdade. Comer algo fresco, bem suculento. Ainda não esqueci as frutas que tínhamos no Egito. A carne gostosa que é tão rara aqui no deserto. A água em abundância, o pão e os bolos dos padeiros egípcios. Estou farta de maná. São a mesma coisa todos os dias.
- Mas que mais poderíamos pedir no deserto? Esta é uma prova do cuidado de Deus. Nunca nos faltou alimento. Não devemos desprezar um milagre assim. Lembra só da quantidade de gente que se alimenta disto todos os dias.
- Sim... Todos os dias, e sempre o mesmo. E porque é que não saímos deste maldito deserto? Já vão mais de 30 anos andando aqui de um lado para outro. Às vezes acho que Moisés não sabe o que fazer. Não sabe para onde vai.
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